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Os 6 tipos de COVID19 e seus sintomas: resposta imune e possível mutação viral

03.08.2020

Por: Mell

Autoras: Leticia Macedo (IG lets.cherry) e Mellanie F. Dutra (@mellziland)

Revisão: Melissa Markoski (@melmarkoski)  e Larissa Brussa Reis (@laribrussa)

Imagem: célula (roxo) em morte celular por conta da infecção pelo SARS-CoV-2 (amarelo). Fonte: https://www.flickr.com/photos/niaid/49727967917

Recentemente, no site MedRxiv (https://www.medrxiv.org/), foi publicada a prévia (preprint, ou pré-impressão ainda sem a avaliação por revisores aos pares) do artigo que traz os resultados de um algoritmo (um algoritmo nada mais é do que uma receita que mostra passo a passo os procedimentos necessários para a resolução de uma tarefa) criado para detectar grupos (ou, do inglês, clusters) de pacientes que apresentaram diferentes sintomas da COVID-19. O aplicativo foi desenvolvido pela Zoe Global Limited, com contribuições de clínicos e cientistas do King’s College London e do Massachusetts General Hospital.

O estudo em questão demonstra 6 grupos com sintomas distintos, deixando claro que não se trata de nenhuma alteração genética por parte dos pacientes, ou de alguma alteração viral, que poderia acarretar em novas formas do vírus, e sim, as variedades de efeitos biológicos que o SARS-CoV-2 pode desencadear.

A descoberta trouxe os seis possíveis níveis de gravidade da COVID-19, que podem facilitar o protocolo médico inicial para cada caso, pois relacionam a probabilidade destes pacientes positivos precisarem ou não de ventilação mecânica e a forma de se posicionar em futuras ondas de epidemias. A abordagem também pode ser usada para monitorar pacientes em risco e prever os requisitos de recursos médicos dias antes de serem necessários, com monitoramento de oxigênio e níveis de glicose. 

Os dados foram coletados de 1.653 usuários, com idades entre 41 e 43 anos, desde o início da doença até sua hospitalização, no período de 1 a 28 de maio de 2020. Observando-se os primeiros 5 dias de registro de sintomas, foi possível detectar a necessidade de suporte respiratório em 78,8% dos casos. Dos 1.653 participantes, 383 relataram (ter feito) pelo menos uma visita ao hospital e 107 relataram a necessidade de suporte respiratório (definido como ventilação ou oxigênio suplementar).  A amostra de replicação independente dos achados consistiu em 1.047 participantes, dos quais 207 relataram ter feito uma visita ao hospital e 59 receberam suporte respiratório. Dos participantes do conjunto de replicação independente, 87,8% eram do Reino Unido, 7,5% eram dos Estados Unidos e 4,7% eram da Suécia.

Os principais sintomas apontados para COVID-19, corroborando o conhecimento existente, foram dor de cabeça, tosse seca, febre, perda do olfato (anosmia) e/ou do paladar (disgeusia). De acordo com a notícia, as seis caracterizações da Covid-19 descobertas através dos algoritmos foram classificados como:

Gripe sem febre  — dor de cabeça, perda de olfato, dores musculares, tosse, dor no peito, sem febre

Gripe com febre — dor de cabeça, perda de olfato, tosse, dor de garganta, rouquidão, febre, perda de apetite

Gastrointestinal — dor de cabeça, perda de olfato, perda de apetite, diarreia, dor de garganta, dor no peito, sem tosse

Tipo severo, nível 1 — dor de cabeça, perda de olfato, tosse, febre, rouquidão, dor no peito, fadiga

Tipo severo, nível 2 — dor de cabeça, perda de olfato, perda de apetite, tosse, febre, rouquidão, dor de garganta, dor no peito, fadiga, confusão mental, dor muscular

Tipo severo, nível 3 — quadro respiratório e abdominal — dor de cabeça, perda do olfato, perda de apetite, tosse, febre, rouquidão, dor de garganta, dor no peito, fadiga, confusão mental, dor muscular, falta de ar, diarreia, dor abdominal.

Como ferramenta clínica, essa abordagem apresentou bons resultados, como em outros estudos ao utilizar aplicativos em celular, podendo ser implementada em nível local, permitindo que os pacientes sejam monitorados remotamente por suas equipes de atenção primária, com sistemas de alerta acionados. Isso se torna bastante relevante nos indivíduos que demonstram sintomatologia associada a um cluster de alto risco, como os tipos severos. Integrado a este estudo, faz-se a pergunta: a sintomatologia dos pacientes seria decorrente de alguma alteração viral?

A resposta é provavelmente não. Conforme já mencionado pela Dra. Melissa M. Markoski, sobre um estudo recente publicado na prestigiada revista científica Cell, as regiões do vírus chamadas de S1 e do domínio de ligação de receptor (receptor binding domain ou RBD, a porção do vírus responsável pela ligação com a enzima conversora de angiotensina, ACE2, das nossas células) que se encontram na proteína do vírus chamada Spike são muito pouco afetadas por mutações comuns (diferentemente de outros segmentos do SARS-CoV-2). Esse fato também aponta que a terapia a base de plasma convalescente e/ou vacinas bem projetadas podem ser eficientes contra a pandemia da COVID-19. 

Somado a isso, um outro estudo publicado na Science demonstrou que a presença e o número de determinadas células do sistema imunológico, como os linfócitos, e das moléculas produzidas por elas geram uma espécie de “classificação”, que são os imunotipos. Esses perfis se relacionam com aspectos clínicos dos pacientes, conforme muito bem comentado pelo texto publicado recentemente em nossa Rede,  analisando esses dados. Entre estes aspectos, os pesquisadores destacaram que a presença de comorbidades (diabetes, hipertensão, doenças inflamatórias, etc.) que causam manifestações clínicas mais severas, se associa à contagem alterada dos linfócitos. Na figura abaixo, retirado do texto publicado pela Rede Análise COVID-19, podemos ver como esses imunotipos podem estar relacionados com esses aspectos clínicos: 

Figura 1: Relação entre as populações de linfócitos (tipos e quantidades) dos pacientes com COVID-19 e o perfil de severidade da doença.

Apesar de estudos recentes estarem mostrando que existe uma certa pressão seletiva (um conjunto de condições ambientais que origina o favorecimento de determinados genes em relação a outros em determinada população) para adaptação do SARS-CoV-2 em seu hospedeiro humano, segundo os pesquisadores não há evidências suficientes para concluir que o vírus está se tornando mais ou menos letal ou contagioso. Dessa forma,as diferentes formas que estamos vendo de manifestação da COVID-19 muito provavelmente são melhores explicadas pela diversidade de imunotipos de resposta dos organismos frente a infecção, do que de variações do próprio SARS-CoV-2 especificamente. A compreensão de como essas respostas e desfecho clínico se apresentam, bem como o rastreio dessas novas mutações e o quanto elas podem impactar no curso da infecção, são informações cruciais para o desenvolvimento de medicamentos e vacinas.

Referências:

https://g1.globo.com/bemestar/coronavirus/noticia/2020/07/17/rastreador-de-sintomas-revela-6-tipos-diferentes-da-covid-19-diz-estudo.ghtml

https://www.medrxiv.org/content/10.1101/2020.06.12.20129056v1.full.pdf

A proteína Spike e a Imunoglobulina G: imunidade ao SARS-CoV-2 do ponto de vista da interação anticorpo-antígeno clássica

https://science.sciencemag.org/content/early/2020/07/15/science.abc8511

A interação entre o SARS-CoV-2 e o sistema imunológico humano: vantagens, desvantagens e consequências do ponto de vista da ativação ou inativação dos linfócitos

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