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Organização Mundial da Saúde reconhece a transmissão do SARS-COV-2 pelo ar, através de aerossóis.

16.07.2020

Por: Mell

Texto: Angel Miríade (twitter: @MyriadAngel / Instagram: myriad_angel)

Revisão:Thiago Gomes / Luciana Santana (lucfsantana1812)

No dia 06 de julho de 2020 um grupo de 239 cientistas de todo o mundo enviou à Organização Mundial da Saúde (OMS) uma carta intitulada “It’s time to adresss airborn transmission of COVID-19” (É hora de abordar a transmissão pelo ar da COVID-19)[1]. Nessa carta, os cientistas alertam para a necessidade de que a OMS reconheça que a transmissão do SARS-COV-2 também pode se dar pelo ar, através de aerossóis contendo o vírus.

Até o momento, a OMS reconhece oficialmente somente a transmissão por meio do contato direto e imediato com o vírus, que é expelido através das gotículas de saliva de pessoas infectadas. Assim, ao falar, tossir ou espirrar essas gotículas são lançadas no ambiente próximo ao emissor. Mas, por serem relativamente grandes (acima de 5 µm), são puxadas para o solo devido à força gravitacional, permanecendo por um curto espaço de tempo suspensas no ar.

No entanto, nesse processo também são expelidas gotículas respiratórias microscópicas, conhecidas como micro gotículas. Essas que também podem abrigar o SARS-COV-2, formando aerossóis. E devido ao seu tamanho (abaixo de 5 µm), essas micro gotículas ficam em suspensão no ar durante um período maior de tempo. Foi o que demonstrou um estudo conduzido por Kazahiro Tateda, professor de microbiologia e doenças infecciosas na Toho University – Tokyo / Japão, em que se aferiu que essas microgotículas podem permanecer em suspensão por até 20 minutos em ambientes fechados e sem circulação de ar[2].

Figura 1 – Permanência de micro gotículas no ambiente sem circulação do ar

Simulação realizada do comportamento das micro gotículas, no estudo conduzido pelo professor Kazahiro Tateda em parceria com a emissora NHK do Japão.

Na carta enviada à OMS, os cientistas alertam que estudos anteriores referentes a outros coronavírus (SARS-COV e MERS-COV) e a outros vírus respiratórios (como o da Influenza) já demonstravam que a transmissão via aerossóis é possível. E essa característica também é compartilhada pelo SARS-COV-2. Segundo um estudo realizado em dois hospitais de Wuhan, em que se confirmou que o RNA viral pode ser encontrado em amostras do ar desses locais[3].

Dois casos ocorridos no início da pandemia foram emblemáticos para que se levantassem suspeitas quanto à transmissão pelo ar. O primeiro caso foi em Hong Kong, em que um edifício foi evacuado após haver o contágio de dois moradores que estavam em isolamento e não tiveram contato entre si. Os residentes estavam há 10 pavimentos de distância, mas compartilharam a mesma corrente de ar devido a uma falha da tubulação no sistema de ventilação de seus banheiros[4].

O outro caso que foi bastante significativo no debate em relação à transmissão da COVID-19 por aerossóis ocorreu em um restaurante na região de Guanzhou (China). Três famílias que não tiveram nenhum contato direto ou indireto almoçaram ao mesmo tempo nesse restaurante. Após essa ocasião, membros das três famílias testaram positivo para o SARS-COV-2. Um estudo investigativo a respeito deste  caso, descobriu-se que um membro de uma das famílias teve contato com pessoas que vieram da região de Hubei. E enquanto estavam no restaurante, essas famílias estavam sentadas em mesas vizinhas e dividindo a mesma corrente de ar proveniente do ar condicionado[5].

Figura 2 – Simulação de contágio via corrente de ar em restaurante de Guazhou

Essa imagem, contida no texto de Yunguo et al (2020), traz uma simulação de como a mesma corrente de ar foi compartilhada pelas três famílias. O paciente 0 está representado na mesa do meio, na cor lilás. Os outros infectados nessa ocasião estão representados na cor vermelha.

Dois dias depois do envio da carta dos cientistas à OMS, foi publicado na revista Nature um experimento realizado com furões que confirmou a transmissão do SARS-COV-2 através do ar. Nesse estudo, os pesquisadores injetaram em alguns furões uma alta carga viral do SARS-COV-2. Colocaram esses animais em uma gaiola dividindo espaço com outro furão. Em outra gaiola, à 10 cm de distância foi colocado um terceiro furão. Essas gaiolas estavam separadas por uma grade de metal que permitia que esses animais dividissem a mesma corrente de ar, conforme mostrado na figura 3. Esse experimento foi repetido algumas vezes com outros animais e por meio disso foi possível confirmar que tanto o animal com contato direto, quanto o animal que somente dividia a mesma corrente de ar, foram infectados[6].

 Figura 3 – Experimento com furões sobre a transmissão do SARS-COV-2

A imagem acima traz uma representação de como foi realizado o experimento de Richard et al (2020). À direita encontra-se o animal no qual foi inoculado o vírus (donor) e o outro animal que dividirá com ele a gaiola, tendo contato direto. À esquerda foi colocado um animal sozinho, que somente dividiria a mesma corrente de ar com os outros dois animais. A corrente de ar foi direcionada da direita para a esquerda, conforme indicado na figura b,

Em vista disso, houve uma mudança no posicionamento oficial da OMS em relação às formas de transmissão do SARS-COV-2. Até então, a entidade admitia que a transmissão por aerossóis suspensos no ar poderia ocorrer somente em ambiente hospitalar, quando um paciente era entubado. No entanto, devido às evidências mais recentes que foram reforçadas pela carta enviada, a entidade passou a admitir a transmissão pelo ar e já incluiu em seu site informações sobre esse tipo de transmissão em ambiente comum (não hospitalar)[7].

Assim, conforme entrevista concedida ao programa Fantástico[8], da Rede Globo, a organizadora da carta, Lídia Morawska – física especializada em aerossóis da Universidade de Queensland/Austrália – alerta que o vírus pode sobreviver nesses aerossóis mantendo sua capacidade de infecção. Ela ainda afirmou que: “Essa relutância da OMS é também de uma parte da comunidade médica, porque estão presos àqueles dogmas de pesquisas feitas no começo do século passado. Desde aquela época aprendemos muito mais sobre as partículas que as pessoas exalam e como elas se distribuem no ar. Ficar preso aos dogmas é impedir o progresso”

Conforme o que é apresentado na carta, a intenção dos pesquisadores era alertar que essa forma de transmissão tem um papel significativo para as ondas de contágio pelo SARS-COV-2. Sendo assim, os autores apontam que é de grande importância a mudança de postura da OMS, com o objetivo de  orientar os países quanto à adoção de medidas mais eficazes a fim de conter esse tipo de transmissão: “Lavar as mãos e manter o distanciamento social é apropriado, mas em nossa visão, insuficiente para prover proteção em relação às micro gotículas respiratórias que carregam o vírus, lançadas no ar por pessoas infectadas” (tradução própria).


[1] MORAWSKA, Lidia; MILTON, Donald K. It’s time to adress airborn transmission of COVID-19. [S. l.: s. n.].

[2] (216) Coronavirus: New Facts about Infection Mechanisms – NHK Documentary – YouTube. . [s. l.], [s. d.]. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=H2azcn7MqOU. Acesso em: 14 jul. 2020.

[3] LIU, Yuan et al. Aerodynamic analysis of SARS-CoV-2 in two Wuhan hospitals. Nature, [S. l.], v. 582, n. 7813, p. 557–560, 2020. Disponível em: https://doi.org/10.1038/s41586-020-2271-3. Acesso em: 14 jul. 2020.

[4] A Store, a Chalet, an Unsealed Pipe: Coronavirus Hot Spots Flare Far From Wuhan – The New York Times. . [s. l.], [s. d.]. Disponível em: https://www.nytimes.com/2020/02/11/world/asia/china-coronavirus-clusters.html. Acesso em: 15 jul. 2020.

[5] LI, Yuguo et al. Evidence for probable aerosol transmission of SARS-CoV-2 in a poorly ventilated restaurant. medRxiv, [S. l.], p. 2020.04.16.20067728, 2020. Disponível em: https://doi.org/10.1101/2020.04.16.20067728. Acesso em: 14 jul. 2020.

[6] RICHARD, Mathilde et al. SARS-CoV-2 is transmitted via contact and via the air between ferrets. Nature Communications, [S. l.], v. 11, n. 1, p. 3496, 2020. Disponível em: https://doi.org/10.1038/s41467-020-17367-2. Acesso em: 13 jul. 2020.

[7] WORLD HEALTH ORGANIZATION. Q&A: How is COVID-19 transmitted?. [s. l.], [s. d.]. Disponível em: https://www.who.int/news-room/q-a-detail/q-a-how-is-covid-19-transmitted. Acesso em: 14 jul. 2020.

[8] Fantástico | Coronavírus pode ser transmitido pelo ar, alerta grupo de cientistas | Globoplay. . [s. l.], [s. d.]. Disponível em: https://globoplay.globo.com/v/8692743/programa/. Acesso em: 14 jul. 2020.

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