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COVID-19 e seus sintomas: análises da terceira fase da Epicovid19

24.08.2020

Por: Mell

Autora: Amanda Gonzalez (facebook: amanda.gonzalez.5264) 

Revisores: Marcelo Bragatte @MarceloBragatte; Letícia Macedo @instaleticiamacedo 

Imagem: Adaptada de Freepik* e Vectorstock**

*https://br.freepik.com/vetores-premium/maos-segurando-o-tablet-com-formulario-de-pesquisa-o n-line-questionario-conceito-de-vetor-de-feedback-marketing-movel-ilustracao-da-lista-de-verific acao-e-lista-de-questionario-tablet-com-feedback_4955506.htm
**https://www.vectorstock.com/royalty-free-vector/virus-wuhan-virus-or-coronavirus-related-vecto r-29427126)

Em abril, teve início o estudo de Evolução da Prevalência de Infecção por Covid-19 no Brasil (Epicovid19-BR), coordenado pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e apoiado pelo Ministério da Saúde. A iniciativa partiu dos pesquisadores do Programa de Pós-Graduação em Epidemiologia da UFPel, programa creditado como CAPES 7 (maior nota no ranking das pós-graduações brasileiras) e altamente reconhecido no cenário acadêmico da epidemiologia nacional e internacional. Segundo assessoria de imprensa da universidade, a pesquisa visa “estimar o percentual de […] infectados com o SARS-CoV-2 […], determinar o percentual de infecções assintomáticas, avaliar os sintomas mais comumente relatados pelos infectados e analisar a velocidade de disseminação do contágio ao longo do tempo” no território brasileiro [1]. Ela acontece em fases, tendo a primeira fase prática ocorrido em maio, a segunda na primeira quinzena de junho e a terceira na segunda quinzena do mesmo mês, estando a quarta fase prevista para acontecer ainda em agosto [1, 2]. Dia 12, os resultados da terceira fase foram publicados na plataforma medRxiv no formato de um artigo preprint, ainda não revisado por pares. O foco dos resultados recai sobre os sintomas causados pela COVID-19. 

A prática da Epicovid19 acontece através de entrevistas feitas em domicílios escolhidos aleatoriamente em todo o país. A entrevista é realizada com apenas 1 morador por domicílio, escolhido ao acaso, e consiste em um questionário aplicado oralmente e um teste rápido para o novo coronavírus. O morador pode aceitar, ou não, participar da pesquisa. O teste rápido utilizado detecta anticorpos IgM e IgG contra o SARS-CoV-2 e é fabricado pela companhia chinesa Wondfo Biotech e aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), com sensibilidade estimada de 84,8% e especificidade de 99,95%. O resultado é lido dentro de 15 minutos ao participante [3]. 

O artigo publicado no medRxiv traz uma importante novidade: em relação às outras duas fases, a terceira contou com uma modificação na metodologia utilizada. Anteriormente, era perguntado o histórico de sintomas ao morador apenas se o teste rápido apresentasse resultado positivo. Assim, além de perder a informação dos indivíduos negativos, importante para fazer a comparação com os positivos, também havia um problema de viés cognitivo, visto que saber o resultado do teste pode influenciar no resgate de memórias do indivíduo. Para uma melhor análise dos sintomas experienciados pela população, os entrevistadores passaram a fazer esse questionamento a todos os entrevistados ANTES de revelar se a presença de anticorpos contra o SARS-CoV-2 havia sido detectada. Aos moradores escolhidos era solicitado relatar se haviam sentido um ou mais de 11 sintomas desde o mês de março de 2020 (tempo de quatro meses), mês oficial de chegada do vírus no Brasil. A lista contou com: febre, dor de garganta, dificuldade de respirar, palpitações, tosse, alteração no senso de olfato ou paladar (anosmia/ageusia), diarréia, vômitos, dores no corpo, tremores e dores de cabeça [3]. 

De 31.869 indivíduos incluídos na pesquisa, 849 (2,7%) testaram positivo. Dos positivos, 58% relataram terem sentido dores de cabeça, 56,5% alterações no olfato/paladar, 52,1% febre, 47,7% tosse, 44,1% dores no corpo, 33,8% dor de garganta, 25,6% diarréia, 23,1% dificuldade de respirar, 20,5% tremores, 20% palpitações e 9,5% vômitos. Já dos que testaram negativo (31.020), 35,5% alegam terem sentido dores de cabeça, 9,1% alterações no olfato/paladar, 12,2% febre, 22,2% tosse, 15,7% dores no corpo, 16,6% dores de garganta, 11,7% diarréia, 9,4% dificuldade de respirar, 6,1% tremores, 10,5% palpitações e 4% vômitos. Comparando os dois grupos, foi visto que todos os sintomas perguntados tiveram maior ocorrência no grupo de indivíduos positivos para anticorpos contra o novo coronavírus. Fazendo uma análise geral, foi visto que apenas 12,1% dos positivos não relataram nenhum sintoma, sendo caracterizados portanto como assintomáticos, enquanto quase metade (42,2%) dos negativos disseram não ter experienciado qualquer um dos 11 sintomas. Isso nos retorna um indicativo de que boa parte das infecções pelo SARS-CoV-2 no país é sintomática, revelando uma parcela de assintomáticos (12,1%) muito menor do que demonstrado/estimado em outros estudos [3]. 

Também foi feita uma análise buscando qual sintomatologia seria relacionada de forma mais específica com a COVID-19. A infecção apresenta quadros heterogêneos, que variam de pessoa para pessoa, não havendo sintomas que se relacionam perfeitamente com a doença. Porém, a anosmia e a ageusia (perda de olfato/paladar) se mostraram os melhores sintomas isoladamente relacionados com a COVID, visto que se apresentam 6.2 vezes mais em indivíduos com anticorpos (56,5% em positivos versus 9,1% em negativos). Combinando sintomas, a trinca febre-perda de olfato/paladar-dores do corpo mostrou alta correlação com a doença, visto que, dos indivíduos que testaram positivo, apenas 0,8% não relataram ter tido nenhum dos 3 [3]. 

A pesquisa apresentou metodologia robusta e incluiu um número grande e representativo de indivíduos. Porém, alguns pontos devem ser destacados: 1) o artigo ainda não foi revisado por pesquisadores da área; 2) o registro dos sintomas contou com a memória das pessoas, que está sempre sujeita à falhas; 3) é impossível saber se os sintomas relatados foram causados pelo SARS-CoV-2 ou por outra condição; 4) a sensibilidade do teste rápido não é perfeita, o que pode ter gerado resultados falsos negativos; 5) há algumas evidências de que os anticorpos gerados durante a COVID-19 não duram muito tempo na circulação, decaindo com rapidez ao longo do tempo, o que também pode ter contribuído para falsos negativos (pessoas que foram infectadas mas tiveram decaimento no nível de anticorpos). Isso pode ser especialmente importante no caso dos indivíduos assintomáticos, pois há evidências de que a produção de anticorpos nessas pessoas é mais fraca do que nas que experienciam sintomas [3, 4]. 

Pode-se dizer que os achados da Epicovid19 são de grande interesse para o entendimento da pandemia no país, visto que geram informações úteis na criação de protocolos e ações de vigilância em saúde. É importante que esse monitoramento tenha continuidade, a fim de aprendermos cada vez mais sobre a dinâmica desse agravo na nossa população e, no fim das contas, salvar o máximo de vidas. 

[1] http://www.epidemio-ufpel.org.br/site/content/sala_imprensa/noticia_detalhe.php?noticia=3136

[2] https://ccs2.ufpel.edu.br/wp/2020/07/02/epicovid19-br-apresenta-resultados/

[3] https://www.medrxiv.org/content/10.1101/2020.08.10.20171942v1.full.pdf

[4] https://www.nature.com/articles/s41591-020-0965-6 

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