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Anosmia: o sintoma subestimado de COVID-19

20.05.2020

Por: Mell

Autora: Mirelle Casagrande, MSc (IG: @mirellecomdoiseles)

Revisão: Mellanie Fontes-Dutra , PhD(@mellziland) e Luciana Santana, PhD (@lucfsantana1812)

Tosse, fadiga, febre, desconforto gastrointestinal, dor muscular e falta de ar são os sintomas clínicos mais comuns de COVID-19 e bem conhecidos pela população em geral. Talvez você tenha recebido uma ligação do Ministério da Saúde, perguntando se você ou algum outro residente de sua casa está apresentando esses sintomas. Essas chamadas telefônicas selecionadas aleatoriamente estão sendo realizadas para levantar dados que possam ajudar a estimar o acometimento da população pelo novo coronavírus e assim elaborar medidas para desacelerar aumento do número de casos. Isso porque não há disponibilidade de testes suficientes para fazer testagem em massa e obter uma estimativa segura da prevalência da doença.

Por se tratar de uma doença nova, embora as principais manifestações clínicas já estejam bem descritas e divulgadas, muito ainda não se conhece sobre ela. Há pouco mais de um mês, surgiram os primeiros relatos sobre anosmia, ou seja, perda da função olfatória relacionada a COVID-19. Sendo comum em infecções virais, como gripe, que causam congestão nasal, a anosmia está apenas começando a ser reconhecida e compreendida no contexto da SARS-CoV-2 (5).

Vamos resumir alguns dos estudos mais relevantes que foram publicados. Uma pesquisa multicêntrica realizada em hospitais europeus investigou 417 pacientes com confirmação de COVID-19. Os resultados apontam que mais de 80% apresentou disfunções olfativas e/ou gustativas, e em mais de 10% dos casos, esses sintomas apareceram antes de qualquer outro (7). Em outros dois estudos, um realizado na França e outro nos Estados Unidos, 47% e 58% dos pacientes investigados reportaram anosmia, respectivamente. Esse sintoma teve início cerca de 4 dias antes do surgimento dos outros sintomas (6,9). Na Califórnia/EUA, um total de 1480 indivíduos participou de uma pesquisa que  apontou perda da capacidade olfativa e gustativa em 68% e 71% dos pacientes que testaram positivo e 16% e 17% para pacientes que testaram negativo para COVID-19. Cerca de 22% relatou que a anosmia foi um sintoma precoce (10). Há também relatos de caso em que a anosmia é o único sintoma apresentado (1). Em geral, sua remissão completa ocorre cerca de um mês após o estabelecimento dos sintomas.

Alguns estudos de revisão de literatura já compilaram as publicações sobre a relação entre anosmia e COVID-19 e o que pode-se concluir com os dados é que há necessidade de seu reconhecimento como um importante sintoma e de sua investigação em questionários de saúde pública para identificação de casos suspeitos (8). 

Mas, como o coronavírus pode causar anosmia?

Vamos conhecer algumas teorias. Se fosse o caso de simples congestão nasal, facilmente poderíamos compreender a situação. Mas os pacientes identificados com COVID-19 não apresentam congestão nasal, o que leva à busca por respostas mais complexas (6). Os estudos se dividem, em geral, em um lado que apresenta alvos do vírus em neurônios olfativos e outro lado que indica apenas infecções tanto da mucosa nasal, quanto do trato respiratório. 

Do lado do grupo que defende essa segunda opção, encontramos resultados de pesquisas que sugerem que a infecção das células epiteliais (não-neurais) seja a ação central do vírus, responsável pela anosmia nos pacientes, com ausência de danos no bulbo olfatório e outras estruturas do sistema nervoso central (1,2). Como a anosmia tem se mostrado temporária nos casos de COVID-19, isso poderia ser explicado pela rápida capacidade de regeneração das células epiteliais da mucosa nasal, garantindo a total recuperação da capacidade olfativa, cerca de um mês após o início dos sintomas.

Porém, diversos vírus, incluindo outros coronavírus e também influenza, podem apresentar penetração através do epitélio nasal para o bulbo olfatório e deste para áreas corticais do sistema nervoso central (10). Embora sejam limitados os estudos com COVID-19, seus mecanismos de ação podem ser semelhantes, ocasionando infecção nessas áreas, e algumas pesquisas já têm apontado complicações neurológicas (como abordados aqui e aqui), com prejuízo funcional de algumas áreas do sistema nervoso central, como bulbo, substância branca e regiões corticais frontotemporais (3,4,11). Esses danos neurológicos podem ser responsáveis também por sintomas secundários, tais como dor de cabeça e confusão mental. 

Além dessas questões, pode haver ainda influência de outras alterações fisiológicas ocasionadas pelo coronavírus, como no sistema imune e atividade pró-inflamatória sistêmica, que interfiram em diversas funções, incluindo na percepção do odor (4).

Portanto, a pergunta sobre como o novo coronavírus age para causar anosmia ainda está em aberto, pois ainda serão necessárias mais investigações que possibilitem  uma resposta final. É importante reconhecer que estamos apenas começando a entender a complexidade dessa nova doença, e que são necessários esforços de todas as partes para que se encontre  respostas e soluções satisfatórias. E você pode ser parte disso. Colabore com as pesquisas e ações que visam o combate à COVID-19, se algum agente de saúde ou chamada telefônica do Ministério da Saúde chegar até você.

Referências

1. Brann D., Tsukahara T., Weinreb C., et al. Non-neural expression of SARS-CoV-2 entry genes in the olfactory epithelium suggests mechanisms underlying anosmia in COVID-19 patients. bioRxiv. 15 apr 2020. Disponível em https://www.biorxiv.org/content/10.1101/2020.03.25.009084v2.full

2. Galougahi MK, Ghorbani J, Bakhshayeshkaram M, Naeini AS, Haseli S. Olfactory Bulb Magnetic Resonance Imaging in SARS-CoV-2-Induced Anosmia: The First Report. Acad Radiol 11 apr 2020. Disponível em https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC7151240/

3. Gutiérrez-Ortiz CMéndez ARodrigo-Rey SSan Pedro-Murillo EBermejo-Guerrero LGordo-Mañas Rde Aragón-Gómez FBenito-León J. Miller Fisher Syndrome and polyneuritis cranialis in COVID-19. Neurology.  17 apr 2020. Disponível em https://n.neurology.org/content/neurology/early/2020/04/17/WNL.0000000000009619.full.pdf

4. Karimi-Galougahi M, Yousefi-Koma A, Bakhshayeshkaram M, Raad N, Haseli S. FDG PET/CT Scan Reveals Hypoactive Orbitofrontal Cortex in Anosmia of COVID-19. Acad Radiol. 3 may 2020. Disponível em https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC7196385/

5. Krajewska JKrajewski WZub KZatoński T. COVID-19 in otolaryngologist practice: a review of current knowledge. Eur Arch Otorhinolaryngol.  18 apr 2020. Disponível em https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/32306118

6. Klopfenstein TKadiane-Oussou NJToko LRoyer PYLepiller QGendrin VZayet S. Features of anosmia in COVID-19. Med Mal Infect.  16 abr 2020. Disponível em https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC7162775/

7. Lechien JR, Chiesa-Estomba CM, De Siati DRHoroi M, Le Bon SDRodriguez ADequanter D, et al. Olfactory and gustatory dysfunctions as a clinical presentation of mild-to-moderate forms of the coronavirus disease (COVID-19): a multicenter European study. Eur Arch Otorhinolaryngol. 6 abr 2020. Disponível em https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/32253535

8. Marinosci, A., Landis, B. N., & Calmy, A. Possible link between anosmia and COVID-19: sniffing out the truth. European Archives of Oto-Rhino-Laryngology. 17 abr 2020 Disponível em https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC7164410/

9. Moein ST1, Hashemian SMR2, Mansourafshar B2, Khorram-Tousi A1, Tabarsi P3, Doty RL4. Smell dysfunction: a biomarker for COVID-19. Int Forum Allergy Rhinol.  17 abr 2020. Disponível em https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/32301284

10. Yan CHFaraji FPrajapati DPBoone CEDeConde AS. Association of chemosensory dysfunction and Covid-19 in patients presenting with influenza-like symptoms. Int Forum Allergy Rhinol. 12 abr 2020. Disponível em https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/32279441

11.  Zanin L, Saraceno G, Panciani PP, Renisi G, Signorini L, Migliorati K, Fontanella MM. SARS-CoV-2 can induce brain and spine demyelinating lesions. Acta Neurochir (Wien). 4 may 2020 Epub ahead of print. Disponível em https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC7197630/

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